terça-feira, 22 de outubro de 2013

" EU AMO "



Eu amo 
as aves que gorjeiam no meu quintal 
e por sobre o telhado do vizinho.
Que fazem seus ninhos nas campinas,
nas frestas das casas,
em sacolas velhas dependuradas ao sol.
Eu amo
saber que elas cantam,
às vezes até para mim,
já que chegam pertinho 
das plantas que se enchem de galhos e folhas
e foram plantadas por estas mãos.
Eu amo
saber que somos todos filhos de Deus. 
Mas tenho certeza de que seria 
mais merecedora do amor divino
se fosse um pouco mais parecida 
com as avezinhas que cantam no meu quintal!

Luiza Válio

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

"SOMOS O QUE SOMOS"


Às vezes,
somos um sopro, 
um suspiro, 
um sussurro, 
mas sabemos que também podemos ser gigantescos como o mar que vem ao encontro da terra para emprestar-lhe sal.
E se somos capazes de dar vida, 
luz, 
calor e sombra, 
como todas as coisas que fazem parte da ordem universal, 
então também poderemos,
um dia, 
nem que seja após a morte, 
transformarmo-nos em estrela, 
chuva, 
areia, 
sol, 
som, 
semente, 
pedra, 
riacho, 
pirilampo, 
colibri...

Luiza Válio

terça-feira, 11 de junho de 2013

"VIRADA"



Vamos lá, amigo! 
Na curva adiante,
o trem vai mostrar
uma outra forma
para se ver a vida,
para se pensar e se querer,
até mesmo para mudar a vida.
Vamos sonhar, amigo,
que o planeta estará salvo,
que estão salvas todas as crianças 
e que o futuro vai acontecer
cheio de fraternidade
e de luz.
Depois dessa curva, amigo,
abrace-se comigo,
porque vamos até poder dar risada
de um tempo que ficou no passado
que esta estrada comeu.

"VERDE VENTRE"


No ventre da mataria, 
as aves no cio
evocam amores 
sombrios
que o tempo vai varrendo
e leva embora.
Resfria-se a terra 
nas sombras e musgos da noite 
e o elo do ocaso 
perdendo a razão
vai jogando pra longe
e pra fora
a essência da vida
que se faz indecência,
pois nem Deus se lembra
para que a criou
no ventre da mataria.


terça-feira, 26 de março de 2013

VIVER É CONJUGAR VERBOS


Viver é conjugar verbos.
Li esta frase nalgum lugar.
E é a mais pura verdade.
Este nosso ato, escrevendo neste momento, sem saber se alguém vai apreciar ou não, é viver.
A concentração que pára um minuto, porque alguém entrou no recinto onde estamos, também é viver.
Viver é o dia que amanheceu para as coisas que vão acontecer.
Viver é a primeira música que ouvimos ao levantar; às vezes, já acordamos com ela na cabeça.
É o espreguiçar de um gato no tapete.
É o trinado das aves que passam com seus gritos pelos céus.
É a porta que ao abrir-se range como a dizer "bom dia" e depois bate porque não sabe como será a volta, se haverá volta.
É o pensar em fazer um café gostoso antes de ir para o trabalho só para sentir o aroma de casa.
É ligar no celular da amiga para lhe contar sobre o sonho bom ou ruim e querer saber do sonho dela, claro.
É pensar nas contas, nas compras, nos compromissos diários. 
Viver é conjugar verbos.
Viver é conjugar todos os verbos e ainda ter tempo de criar outros mais.
Acima de tudo, viver é conjugar-se à vida.

sábado, 1 de dezembro de 2012

POEMA PARA UM SÁBADO SORRIDENTE!


Que bom que o sol brilha, acalentando a vida!
Que bom que as aves gorjeiam, como se fossem donas dos ares!
Que bom que os regatos vão levando suas águas mansamente, como se abrissem o caminho para receber novos líquidos!
Que bom que as flores nascem na floresta, bastando para isso que o vento ou um pássaro levem as sementes, acomodando-as num minúsculo torrão, numa simples fenda de rocha, num musgo, num tronco, num oco!
Já pensou se eles precisassem de nós para existir?

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

"LEILINHA"




Dizem que foi por ali que aquela menina se perdeu.
Quem se lembra?
Mirrada, medrosa, triste, olhos esbugalhados.
Nem parecia uma criança de apenas oito anos de idade.
Portava-se com suprema dificuldade, como se esforçando para carregar o mundo sobre a cabeça.
Os braços eram tão curtos que mal movimentavam-se para o lado, antes, pendiam, como se fossem fardos pesados demais.
Leilinha era o nome dela.
Mas as pessoas já esqueceram do nome dela.
Ficou só como "a menina do mato", "a menina santinha", "a menina que sumiu na mataria".
Anos se passaram e a história da menina foi esquecida.
Um belo dia, apareceu no lugar um grupo de ciganos.
Pediam comida, trocavam peneiras, vendiam colares, liam as mãos...
A mãe da menina Leilinha, agora já mais velhinha, lembrou de perguntar à cigana sobre o paradeiro da sua filha.
E a mulher lhe respondeu:
- Na árvore. Lá naquela árvore.
Com gestos meio apressados, apontava a mais alta das árvores, longe, muito longe dali.
- Lá naquela árvore. A menina está lá.  
Um lenheiro muito bom resolveu fazer um favor para a velhinha e tomou o rumo apontado pela cigana.
Foram mais de vinte dias no meio da mata.
Até que, decidido a voltar, com o corpo completamente ferido pelos espinheiros do caminho, resolveu parar num regato e tomar de sua água.
Foi na água que viu aquele vulto.
Uma criança.
Linda menina.
- Oi, menina. De onde você veio?
Na ausência de resposta, pois a menina principiava a correr mata adentro, o lenheiro foi atrás do seu rastro.
E viu.
Um clarão no meio da floresta.
Uma tapera.
Um homem e uma mulher.
- Meu Deus, você não é a Leilinha?
- Sou, sim. 
- O que aconteceu que você se perdeu?
- Me perdi e fui encontrada por um homem que também se achava perdido na mata. Criamos uma família juntos. Já pensamos em retornar à civilização, mas temos medo. Meu marido é cego e mudo, como é que vamos explicar as coisas, né?
- Eu posso ajudar. Se vocês quiserem, eu ajudo.
Ninguém ouviu falar mais nem da menina e nem do tal lenheiro. 

Luiza Válio.